Era um dia tranquilo como qualquer outro na Vila da Névoa, a gritaria das crianças brincando já tinha acostumado os aldeões que moram alí, o barulho das crianças brincando reforçava o quanto eles eram protegidos e que aquele era um bom lugar para se viver, Jorge aos seus 14 anos, estava brincando com seus amigos e como de costume eles brincavam se ser soldados, eles queriam ser fortes para se tornarem soldados quando fossem adultos, um guerreiro que protege seu povo de ameaças dracônicas, eles viam honra naquilo, Jorge tinha um escudo e uma espada de madeira feitos pelo seu pai que era um carpinteiro. os soldados eram reconhecidos como verdadeiros heróis por manterem a paz e segurança da vila. Jorge era um menino muito dócil, seus pais não eram nobres porém, souberam lhe dar uma boa educação, o pai de Jorge, Darius, era um bom carpinteiro, então sempre estava fazendo serviços, aquilo rendia um bom dinheiro para manter a sua família, graças aos seus pais Jorge sempre teve acesso a uma boa educação.
Naquela manhã Jorge comeu depressa, lavou o rosto no balde, vestiu a camisa limpa e pegou a espada de madeira que o pai fizera para ele
. O peso familiar na mão o fez se sentir invencível. Passou pela oficina de seu pai antes de sair: o seu pai, Darius ergueu os olhos da viga de carvalho, acenou com a cabeça e voltou ao trabalho. Tudo normal. Tudo perfeito.
Saiu para a rua. A névoa já se desfazia em fios finos, o sol dourava os telhados. Crianças corriam atrás de galinhas, lavadeiras batiam roupa no rio, o cheiro de pão fresco subia da padaria. Jorge caminhou até o pátio central assobiando, a espada balançando na cintura improvisada.
Lucas e Elena, seus melhores amigos já estavam lá, sentados num caixote velho, afiando varas como se fossem lanças de verdade.
— Demorou, capitão! — gritou Lucas, pulando de pé.
Elena riu, balançando os cachos pretos.
— Hoje a Guarda da Névoa conquista o norte inteiro! Dragões que se cuidem!
Jorge ergueu o escudo de madeira, entrou na brincadeira sem hesitar.
— Pela Vila da Névoa! — berrou, correndo atrás dos amigos. — Nenhum dragão passará!
Eles pulavam barris, rolavam no chão de terra batida, fingiam golpes épicos. Jorge gritava ordens inventadas, ria alto quando Elena “lançava feitiços” com varinhas de graveto, sentia o vento no rosto e o orgulho no peito. Era um dia como qualquer outro: o maior problema era quem ganharia a próxima “batalha”, e o maior medo era tropeçar na própria capa.
— Um dia eu vou ser como os soldados de verdade! — gritou ele, erguendo o escudo bem alto. — Vou proteger todo mundo! A vila inteira!
Os amigos riam e se divertiam bastante. O sol estava alto, o céu limpo, a vila viva e segura dentro dos muros altos.
E então o chão tremeu.
Um tremor baixo, profundo, como se a terra tivesse inspirado com força. Poeira subiu das rachaduras entre as pedras do pátio. As crianças pararam no meio da corrida, olhares confusos.
— Sentiram isso? — perguntou Lucas, a voz perdendo o tom de brincadeira.
Jorge baixou o escudo devagar, o coração dando um pulo estranho. Olhou ao redor: as lavadeiras pararam de bater roupa, os mercadores ergueram a cabeça das barracas. Por um segundo, tudo ficou quieto demais.
Antes que alguém dissesse mais uma palavra, gritos distantes cortaram o ar — gritos de pavor puro, não de jogo.
A multidão invadiu as ruas. Jorge foi empurrado na confusão, perdeu os amigos de vista. O coração disparou.
Do outro lado da praça, Eliza saiu de casa enxugando as mãos no avental, o rosto pálido. Ela já desconfiava. “Não… não pode ser”, murmurou. Então gritou:
— Jorge! Filho!
O menino, perdido no meio do caos, ouviu a voz da mãe e respondeu aos berros:
— Mãe! Estou aqui!
Eliza correu, abrindo caminho entre os aldeões apavorados. Quando o viu, o alívio a invadiu como uma onda. Ela o puxou para um abraço apertado, as mãos tremendo nas costas dele. Lágrimas quentes molhavam o cabelo do garoto.
— Meu amor… você está bem? — perguntou ela, voz embargada.
— Estou, mãe… mas o que está acontecendo? Por que todo mundo está correndo? Cadê o pai?
— Ele deve estar vindo, filho. Agora precisamos sair daqui. A vila… a vila não é mais segura.
Os muros não resistiram. Quatro dragões guerreiros — criaturas imensas, encouraçadas, com escamas verdes e chifres afiados — romperam as defesas. Os soldados lutaram bravamente, mas foram massacrados. Casas desabavam em chamas, gritos se misturavam ao rugido das feras. O ar cheirava a fumaça, sangue e enxofre.
Enquanto tentavam fugir pela rua lateral, um dos dragões os encurralou contra uma parede desmoronada. A criatura media quase dois metros e meio de altura, pele escamosa esverdeada, armadura tosca de couro e metal, uma saia de correntes pendendo da cintura. Dois chifres curtos brotavam da testa. Os dentes pontiagudos estavam manchados de vermelho fresco. Grunhia baixo, faminto, aproximando-se devagar.
Eliza puxou Jorge para trás de si, abraçando-o com força. O garoto tremia, olhos fixos na besta.
O dragão ergueu a garra enorme para o golpe final.
— Ei, seu monstro maldito! Aqui! Venha me pegar!
O grito veio de trás. Darius surgiu correndo, machado de lenhador na mão, rosto suado e determinado.
Jorge ergueu os olhos, esperançoso.
— Pai!
Mas Eliza sabia. Ninguém sobrevivia a um dragão guerreiro.
— Darius, não! Cuidado! — gritou ela, voz falhando em soluços.
Darius avançou, girando o machado com toda a força. A lâmina bateu na escama do ombro da criatura… e se partiu ao meio com um estalo seco.
O dragão nem piscou.
Darius recuou um passo, olhos arregalados. Tarde demais. A garra veio como um borrão. Acertou o rosto dele com força brutal. O corpo de Darius voou, bateu no chão e ficou imóvel. Morto.
Eliza soltou um grito gutural. Sem pensar, pulou nas costas da criatura, agarrando-se ao pescoço escamoso.
— Seu desgraçado!
O dragão a arrancou com uma mão só, como se ela fosse uma boneca. Apertou. Ossos estalaram. Jogou o corpo dela ao lado do marido. Eliza caiu sem vida, olhos ainda abertos em choque.
Jorge ficou paralisado. O mundo girava. Lágrimas presas na garganta. Seus pais… mortos. Em segundos.
Ele correu até os corpos, ajoelhou-se entre eles e soltou um berro de dor pura. As lágrimas finalmente vieram, quentes e abundantes.
O dragão se aproximou por trás, erguendo a garra para acabar com o garoto.
De repente — um silvo cortante. A cabeça da criatura voou, separada do corpo por um golpe limpo. Sangue negro espirrou no rosto do jovem. O corpo caiu para trás com um baque surdo.
Jorge ergueu os olhos, atordoado. Diante dele, uma figura encapuzada bloqueava o sol. Armadura prateada, uma espada enorme ainda pingando sangue. A silhueta era imponente, quase irreal.
Outro dragão rugiu e avançou contra o estranho. O guerreiro se moveu com velocidade impossível: esquivou, tropeçou o monstro com o pé e, no instante em que ele perdia o equilíbrio, girou a lâmina. Outra cabeça rolou. Dois corpos sem vida no chão.
O homem se aproximou de Jorge, abaixando-se um pouco. A voz saiu grave, firme, mas não cruel:
— Você está bem, garoto?
Jorge demorou a responder. A voz saiu rouca, quebrada:
— Aquele… aquele monstro matou meus pais.
O guerreiro olhou os corpos por um instante, depois para o menino.
— Então saia dessa vila, se não quiser acabar como eles. Ninguém sobreviveu aqui. Você teve sorte.
Jorge balançou a cabeça, lágrimas caindo nos corpos.
— Talvez eu queira morrer aqui… Não tenho mais nada.
— Não fale besteira — retrucou o homem, voz mais dura agora. — Morrer não traz eles de volta.
Jorge soluçou, abraçando os pais.
— Eu… eu não posso deixá-los aqui assim…
O guerreiro ficou em silêncio por um momento. Depois suspirou, embainhou a espada e pegou uma pá improvisada entre os escombros.
— Então vamos enterrá-los. Dê seu adeus direito. Depois… partimos.
Trabalharam em silêncio. Jorge cavou com as mãos até sangrar, chorando baixo. Quando terminaram, o menino se ajoelhou uma última vez, tocou os rostos frios dos pais e sussurrou:
— Eu vou ficar forte… Prometo.
O guerreiro colocou a mão no ombro dele — um gesto breve, quase gentil.
— Vamos, garoto. O mundo lá fora ainda tem monstros. E você ainda tem vida.
Eles partiram enquanto a vila queimava atrás deles, fumaça subindo como um adeus final.